Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


"Il y a longtemps que je t'aime / Jamais je ne t'oublierai..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.02.10

 

É esta canção infantil que acompanha uma das cenas finais do filme The Painted Veil. Um Somerset Maugham a navegar neste rio...

 

Podemos pegar no filme por diversos ângulos:

- como uma jovem mulher troca uma prisão emocional (a mãe, sobretudo) pelo desconhecido;

- como aprender a viver e a amar implica uma densidade emocional dolorosa... as desilusões pelo caminho... e a pena de ter magoado quem nos amou;

- como são complexas as pessoas: imprevisíveis, nada parecidas com os teus micróbios;

- como é possível a descoberta do amor e da paz depois da maior violência e indiferença.

 

Tentarei pegar pelos diversos ângulos possíveis, mas antes de tudo, gostava de falar da leveza, dessa leveza que surge na maior densidade  e intensidade emocional. É essa leveza que torna a vida suportável.

Também foi essa leveza que salvou a jovem mulher: sou uma pessoa normalíssima que gosta de passear, ir a festas, dançar, dir-lhe-á ela. É com essa atitude simples e despretensiosa que ela encara a terrível decisão que o marido a obriga a assumir. É também assim que se tenta aproximar dele, apesar da sua rejeição e desprezo. E finalmente fazer qualquer coisa, tornar-se útil de alguma forma. Mesmo que a realidade não seja nada leve ou a ideal, ela prefere ver a parte que permite melhorar a vida das pessoas.

 

Finalmente ficamos também a saber que não são tão diferentes como julgavam, há pontes que se descobrem, uma paz que desconheciam. Esperávamos um do outro o que não podíamos dar... transforma-se nessa aceitação tranquila do que o outro é e faz, de como tenta fazer o melhor possível.

 

Numa época como a nossa, de grande superficialidade e frivolidade, este filme é uma sacudidela emocional para quem o quiser ver, realmente ver. Há um caminho que se percorre, as personagens erram, enganam-se, tentam redimir-se. É esse caminho difícil, aprender a viver e a amar, crescer afinal.

 

E aqui posso retomar o fio à meada: uma jovem mulher quer libertar-se da frieza de uma mãe que não a leva a sério e não a aprecia. Este homem aparece do nada, um bacteriologista, que quer ir para a China distante. Um homem decidido e apressado. A decisão é tomada sem pensar duas vezes. E o cenário já é outro, um outro universo. De certo modo, foi uma fuga que a levou a decidir.

 

Sim, aprender a viver e a amar é sempre um caminho doloroso, emocionalmente exigente, há uma densidade e intensidade emocional que deixa marcas, há desilusões garantidas, muitos erros a lamentar como o maior de todos: magoar quem não queríamos magoar.

 

A complexidade das pessoas não é visível num microscópio, como ela lhe dirá, a imprevisibilidade, os erros, e depois a tentativa de acertar de novo, de ser útil, de fazer o que é possível.

 

Em linguagem do cinema, não posso dizer que o filme seja muito original ou particularmente brilhante. Destacam-se a fotografia, a música, algumas cenas, os actores...

Mas é um Somerset Maugham, o escritor de personagens enigmáticas que se revelam depois, tal como na vida real.

A mim comoveu-me, a sério! Já não é muito frequente um filme conseguir comover-me. E já não há muitos filmes assim, a tratar dos assuntos da vida e dos afectos, da lógica e da falta dela, de circunstâncias adversas ou coincidências felizes, de personagens vulneráveis, com esta intensidade e densidade.

 

É o segundo Edward Norton que aqui está a navegar, um actor também ele enigmático e com uma inexplicável presença nos filmes em que aparece. Nesse outro vale vemo-lo obcecado  por uma adaptação, um papel numa sociedade que não entende, e por uma família instantânea.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:55

Os filmes muito arrumadinhos dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.08.09

 

Nesse fim de semana de excessos cinematograficos, ainda vi o Giant pela terceira ou quarta vez. Foi no sábado.

Gosto dos filmes dos anos 50 muito arrumadinhos e muito postal ilustrado como este Giant. vá-se lá saber porquê!

 

Aqui, são os actores Liz Taylor e James Dean que fazem o filme, que lhe dão a consistência e a atmosfera.

Jett ficará para sempre fascinado por ela, desde o primeiro momento em que a viu. Fará tudo para lhe agradar. Como um rapazinho, obedece-lhe mesmo em iniciativas que contradizem as suas convicções, a sua cultura texana: ajudar os empregados mexicanos nos cuidados de saúde, nas condições em que vivem. Esse é o primeiro choque cultural vivido por esta jovem mulher.

Sim, Jett pensa, erradamente, que é o dinheiro, ou a falta dele, o grande obstáculo para se aproximar dela, para a impressionar. Aquela mulher valoriza outras qualidades e dir-lho-á: O dinheiro não é assim tão importante...

Ao que ele responde, irónico: Não é importante para quem o tem...

Mas se é verdade que o dinheiro é importante sobretudo para quem não o tem, também é verdade que é nas outras qualidades que esta mulher fixa a sua vida ali, no meio daquela imensidão texana. É essa a sua razão de viver: cuidar da sua família, dos empregados e dos habitantes da aldeia.

Essa razão de viver passará para o seu único filho homem, que quer ser médico e exercer na aldeia. Essa ausência de preconceitos raciais passa, curiosamente, de mãe para filho. É assim que ele formará uma família-síntese de diversas culturas.

 

Apesar de Rock Hudson encaixar às mil maravilhas num filme assim arrumadinho dos anos 50, não me parece que exemplifique um espécimen masculino texano dos anos 20 aos anos 50. Não me parece. Mesmo mimado pela irmã mais velha, Luz... mas isso são convicções e cepticismos muito pessoais, pois procuro sempre a verosimilhança, a credibilidade das personagens.

Não me parece, pois, muito credível, que este homem, habituado a exercer o poder masculino, na ordem natural das coisas, acabe por ceder à influência da mulher, por mais que a ame. Embora a ideia dessa possibilidade me agrade.

 

Aliás, é quase reconfortante ver como, apesar da sua aparência frágil, esta jovem mulher parece conseguir domar o marido, aquele homem das cavernas, procurando construir uma relação igualitária no casal e o respeito pelas mulheres no círculo de amigos. Mas a verdade é que, quando são as próprias mulheres a submeter-se, como crianças, ao domínio masculino... já é mais difícil! Bem, conseguir sensibilizar o marido já me pareceu obra!

Mas em Cinema tudo é possível. E é bom que assim seja. Porque o Cinema, enquanto arte, influencia a vida. E de forma misteriosa e até imprevisível.

Sim, o cinema por vezes é a arte do impossível.

 

No final é esse texano, habituado a uma clara divisão de poderes e de tarefas, de classes sociais e de etnias, a defender direitos iguais para qualquer cidadão.

 

Sim, estes filmes arrumadinhos dos anos 50 começam no início, continuam no meio e terminam no final.

Neste caso, o final é simbólico: o futuro da América está no convívio pacífico e igualitário de homens e mulheres de diversas etnias. Duas crianças olham-nos directamente, em grande plano. Interessante imagem para concluir aquela saga familiar dos Benedict voltando-a para o futuro, não apenas o seu, mas de toda uma nação...

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:13

Descobrir a nossa natureza

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.06.09

 

Volto a colocar a jangada neste rio, às vezes calmo às vezes caudaloso, e ainda ouço a voz da Marilyn, suave e poética: I can hear my lover call... Come to me...

Já não há filmes assim, nem heróis poéticos assim...

Mas há filmes que me acompanham sempre, sobretudo dos anos 80 e 90.

Um que me tem surgido ultimamente, com a sua atmosfera poética e sensual: A Room With A View. Magnífica sequência de cenas, introduzidas como capítulos de um romance.  Magníficas personagens a interagir em cenários  deslumbrantes.

 

A rapariga que foge da sua própria natureza. Mas que vai recebendo indicações.

Ao ouvi-la tocar uma peça de Beethoven ao piano, uma das personagens dir-lhe-á a frase-chave do filme: Se a sua vida vier a reflectir a forma como toca, que vida interessante!

O rapaz que por ela se apaixona: O que aconteceu entre nós é muito raro...

A mãe que às tantas desabafa, desesperada, quando a vê a querer fugir, teimosamente: Já pareces a Charlotte!

O pai do rapaz que zela pela sua felicidade: Porque havemos de acreditar em si se mentiu a toda a gente?

 

A cena mais poética e marcante de todo o filme: o beijo em pleno campo nos arredores de Florença.

Esta cena irá escandalizar a prima solteirona Charlotte Bartlett e marcar para sempre a impressionável novelista, Eleanor Lavish, que a reproduz em livro. A história deste beijo irá surpreendê-los já em Inglaterra quando é lida em voz alta pelo noivo, o tímido e desajeitado Cecil Vyse.

 

Uma breve pausa na história para falar da fotografia e da atmosfera do filme. É James Ivory. E é Florença. E o campo inglês, aqueles jardins...

É verdadeiramente incrível como James Ivory nos consegue transportar para uma época, um ambiente e uma certa excentricidade. Em duas pinceladas coloca-nos nessa Inglaterra campestre, amável, acolhedora, numa família um pouco excêntrica: uma mãe tolerante e permissiva com os filhos, dois irmãos cúmplices, e uma certa espontaneidade genuína na forma como se exprimem emoções, sentimentos e afectos.

 

E é nessa viagem à Itália que a aventura começa. Acompanhamos aquelas duas, Lucy e Charlotte, nessa aventura, que será muito mais do que uma simples viagem, é a descoberta da sua verdadeira natureza (para Lucy) e a possibilidade de aprender a confiar na autenticidade do rapaz (para Charlotte).

Também terá uma influência decisiva no noivo de Lucy, o pobre Cecil Vyse, também ele ignorante da sua própria natureza.

Sim, esta viagem à Itália irá alterar as suas vidas de forma determinante.

James Ivory revela-nos aqui, de uma forma magnífica, a natureza exuberante, esfusiante, calorosa, sensual de Itália. Aqui a atmosfera é de uma natureza diferente: nas praças,  na cor, na luminosidade, e na sua cultura (os jovens apaixonados que chocam o velho Reverendo, mais austero, ou o duelo sangrento em plena praça pública que leva Lucy a desmaiar).

Nenhuma personagem lhe pode ficar indiferente! Nem mesmo Charlotte, que fica um pouco desorientada no meio daquelas ruas medievais que tanto fascinam Eleanor Lavish, a novelista.  (1)

 

Quando (re)virem o filme, reparem bem na troca de quartos inicial: ao ouvir Charlotte queixar-se de terem ficado num quarto das traseiras, o pai do rapaz apressa-se a oferecer-lhes o deles, que não precisam da vista. O rapaz (George) volta atrás para virar o quadro pendurado na parede, onde desenhara um sinal de interrogação.

A cena de Lucy e George (o rapaz) na praça onde ela fora comprar postais é uma das mais poéticas: Lucy desmaia ao ver todo aquele sangue vermelho-vivo, num homem jovem subitamente morto ali à sua frente. Não quer dar parte de fraca, mostra-se sempre altiva, orgulhosa, independente. Debruçam-se na ponte sobre o rio e George lança os postais à água. Estavam sujos de sangue, diz-lhe.

 

Mas voltemos à cena daquele beijo, tão sem-cerimónia, tão espontâneo, e tão genuíno. Beijo que antecipará o regresso das duas a Inglaterra e deixará Charlotte num terrível complexo de culpa, por não a ter conseguido proteger melhor.

Mas Lucy não revela qualquer perturbação. Talvez apenas uma leve irritação com algumas frases mais preconceituosas do noivo (Cecil), sobre as pessoas em geral, irritação que talvez revele uma nova visão das coisas: a sua irremediável diferença.

Aqui ficamos a conhecer melhor Cecil: a sua formatação de "homem civilizado", levada ao limite. Na forma como se exprime, como veste, como se comporta socialmente. Vêmo-lo aqui com todos os seus preconceitos filosóficos e sociais, de quem busca a perfeição e o sublime. Cecil é uma alma que se julga sensível e artística, mas sem o ser verdadeiramente, sem o sentir e viver.

 

Avancemos para a cena em que Lucy dá de caras com George, que mudara de armas e bagagens com o pai para uma pequena casa ali perto, agora convidado do irmão para uma partida de ténis.

E à cena em que Cecil lê em voz alta a descrição daquele beijo apaixonado, na nova novela de Eleanor Lavish. Lucy tenta escapar àquela situação embaraçosa (e fugir da sua confusão interior?), mas George persegue-a e consegue declarar-se: o que aconteceu entre nós é muito raro. Lucy é implacável, tem noivo. George descreve-lhe a natureza de Cecil e a sua impossibilidade de amar verdadeiramente uma mulher, pode tratá-la como uma obra de arte, que se admira e possui, mas sem a conhecer verdadeiramente.

 

Avancemos agora para a cena do passeio de Lucy e Cecil e de um outro beijo. Cecil olha em volta e pede-lhe autorização para a beijar. Lucy sorri, levemente divertida. Este beijo, tímido e desajeitado,  em perfeito contraste com o primeiro.

Mas o maior contraste ainda está para ser revelado! A alegria descontraída dos rapazes, George e o irmão de Lucy, e do excêntrico Mr. Arthur Beebe. Este trio que fora nadar no lago, irá surgir-lhes à frente repentinamente, completamente nu, em correrias divertidas. Este sim, é o maior contraste possível: a natureza no que tem de autêntico e espontâneo, e a fatiota convencional de Cecil que fica sem pingo de sangue! A simplicidade e ausência de artifícios e o protótipo do "homem civilizado".

 

Na realidade, George não é o inverso de Cecil. É apenas o que falta a Cecil para viver e sentir a sua arte sublime. É o "homem sensível", o homem curioso, ávido de filosofia e cultura, de arte e viagens, mas que busca a experiência completa, plena, sorver a vida e saboreá-la com todos os sentidos despertos.

O "homem sensível" vive os afectos: o seu amor filial é enternecedor; e o amor-paixão, quer vivê-lo em plenitude. Segue a filosofia naturalista do pai, de forma lógica: vive de forma autêntica.

E Lucy acompanha-o nesta dimensão, são de naturezas muito semelhantes.

É o que dirá ao pobre Cecil, nessa noite em que desfaz o noivado, nessa súbita despedida que deixa Cecil destroçado. Desculpem-me, mas esta cena é mesmo de partir o coração: o Daniel Day-Lewis  dá-lhe uma consistência e uma vulnerabilidade tal que a cena sempre me toca profundamente. Cecil a limpar os óculos depois de a ouvir dizer as palavras (que ela ouvira a George), que o descrevem assim de forma tão cruel!

 

Lucy é implacável, definitiva. Pensamos que irá aceitar George, mas Lucy escolhe a fuga: já está a pensar em viajar de novo, com duas senhoras idosas que conhecera em Florença e com quem se correspondera depois. Nem mais. E conta à mãe a sua última decisão: mal tome posse do seu dinheiro (herança do pai?) irá viver com uma amiga na cidade.

E é aqui que começamos a ver, em linguagem de cinema, o desenrolar final de uma escolha.

Em linguagem de cinema os "timings" são determinantes para os acasos, a coincidências, os encontros e os desencontros. Porque na vida real também é assim.  (2)

É o amor maternal que a salva desse afastamento de si própria e dos seus afectos. A mãe não tem contemplações, está francamente irritada: Já pareces a Charlotte!

É claro que isto deixa Lucy a pensar, não pode ficar indiferente! Aquelas ideias libertárias e feministas, de uma mulher que apenas desenvolve a sua dimensão social, educação e trabalho, esquecendo as outras dimensões.  (3)

É isto que a mãe lhe quer dizer: Não fujas das outras dimensões, da realização do amor, da paixão, da família, da maternidade, todas as dimensões de uma vida mais plena e gratificante.

Pelo menos foi assim que eu percebi aquele desabafo. Esta mãe é terna e benevolente com os filhos, mas não os infantiliza. Mostra-lhes as opções e os diversos cenários. É a "mulher natural", completa, a meu ver, sem grandes pretensões intelectuais mas terrivelmente sensata, que reúne as diversas dimensões femininas: afectos, prazer, alegria, família, maternidade, vida social, uma vida confortável e equilibrada. Vêmo-la a conviver, a jardinar, a rir. É uma mulher feliz.

 

E tudo parece acontecer por um mero acaso. Lucy encontra o pai de George enquanto espera pela mãe. O filho virá buscá-lo, pois já não faz sentido manterem ali casa. E confronta-a com as suas mentiras, sobretudo a si própria. Lucy assume finalmente o seu amor por George.

Claro que contado assim não tem qualquer poesia. Estou a seguir as cenas de memória. Sim, vi e revi o filme, mas a forma como o gravamos é sempre tão pessoal!

 

 

 

(1) Se até o sombrio Nietzsche não lhe ficou imune! Como leio n' O Consolo da Filosofia de Alain de Botton: ... no Outono de 1876, Nietzsche viajou para Itália e sofreu uma mudança radical de mente. Aceitou um convite de Malwida von Meysenbug, uma rica dama de meia-idade entusiasta pelas artes, a passar alguns meses na sua companhia e de um grupo de amigos numa 'villa' em Sorrento, na baía de Nápoles.

'Nunca o vi tão animado. Ria alto por puro prazer', relatava Malwida a respeito da primeira reacção de Nietzsche à 'Villa' Rubinacci, situada numa avenida arborizada no extremo de Sorrento. ... (Botton, Alain de - O Consolo da Filosofia, Publicações D. Quixote, 3ª edição, pág. 245)

No Cinema, também David Lean nos revela esse fenómeno em A Passage to India mas com um impacto mais intenso e perturbador.

 

(2) Bem, em linguagem de cinema dá-se sempre uma ajudinha aos encontros, não é?, uma batota deliciosa que a realidade não dá, como sabemos por experiência própria.

 

(3) Sobretudo nesta época, transição do séc. XIX para o XX, em que, na mulher, as dimensões familiares ("afecto", "casamento", "maternidade") eram valorizadas, e as dimensões sociais ("educação", "intelecto", "trabalho"), desvalorizadas e às vezes até desprezadas.

 

 

 

Interessante coincidência: Hoje, dia 24, ao espreitar no IMDB para verificar as Tags, descubro que tanto A Room With A View como A Passage To India se baseiam em novelas de E. M. Forster ( escritor inglês nascido em 1879). Interessante, porque tinha referido igualmente A Passage To India do David Lean para exemplificar a influência, o impacto da natureza de um lugar sobre a natureza humana, em ambos na personagem feminina principal.

Igualmente no IMDB confirmo, como filmes baseados em novelas de E. M. Forster, dois outros filmes, realizados igualmente por James Ivory, de que gostei muito: Maurice e Howards End. Espero ainda pô-los a navegar neste rio...

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:13

Australia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.05.09

 

Neste fim-de-semana prolongado deu tempo até para ver cinema em casa. Escolhi o Australia, ou foi este filme que me escolheu. É que as cópias já estavam todas esgotadas (1 de Maio!) mas a jovem simpática do Clube Vídeo adiantou-se: Acabaram de entregar uma cópia (era a hora-limite de entrega dos filmes alugados).

Australia veio comigo, pois. Expectativas? Baixas: imaginava-o um filme de encomenda para os actores brilharem e pouco mais. Uma publicidade ao país dos cangurus, também. Um filme de aventuras com todos os ingredientes habituais: herói bonito e corajoso; heroína bonita e rebelde; paixão q.b.; perigos q.b.; diálogos trabalhados ao milímetro para prender a atenção e o interesse; cenas com muita acção, etc.

 

Surpreendentemente, este filme é despretensioso, luminoso, mágico. Não fazia ideia que iria focar a cultura aborígene, que sempre me fascinou, vá-se lá saber porquê.

Começa por nos introduzir aquele terrível racismo: as crianças aborígenes mestiças eram retiradas aos pais e enfiadas numa Missão para ser domesticadas e formatadas segundo a cultura dominante. Também os bares (e outros lugares públicos) eram interditos a pretos.

Ora, o nosso herói (magnífico Hugh Jackman) foge à regra, convive com os pretos. Esta circunstância obriga-o a uma actividade extra (andar à pancada, o chamado boxe de rua ou uma modalidade do boxe, melhor dito, porque aqui tudo vale, até atirar malas de viagem ao adversário).

Esta cena da pancadaria à frente do bar está mesmo fabulosa, lembrou-me os westerns dos anos 40, 50. A Lady Ashley (fabulosa Nicole Kidman) é que não achou graça nenhuma ao ver a sua roupa interior a voar no meio daqueles homens-espectadores, e tocada pelo lutador que ficou de pé: Bem-vinda à Australia!

 

O nosso herói, Drover (o que leva o gado) também tinha sido responsabilizado por levá-la a casa, numa carripana desengonçada. Essa viagem inclui outra série de cenas bem conseguidas e divertidas, a lembrar desta vez os diálogos cheios de equívocos e de provocações bem-humoradas das comédias românticas dos anos 30 (e como o guarda-roupa é dessa época surge quase a ilusão de viajar no tempo).

Drover explica-lhe que é um homem independente: Ninguém me contrata, ninguém me dá ordens. E dir-lhe-á, filosoficamente: A única coisa que temos é a nossa história.

Mas Lady Ashley não se deixa impressionar, para ela tudo aquilo é uma vida de aventura que também terá fascinado o marido. Uma vida sem responsabilidades.

Os equívocos linguísticos são mesmo hilariantes, Drover fala-lhe de cavalos, Lady Ashley vê-lhes um segundo sentido... A sua opinião do marido também não é lá muito famosa. Imagina-o ali numa vida devassa e só mais tarde irá ver a sua verdadeira motivação, o seu sonho, e dar-lhe sequência.

 

Entretanto, passei por cima das cenas iniciais com o miúdo, Nullah, que se apresenta directamente como não sendo branco, nem preto, não tendo lugar... e o avô, King George, que lhe ensina as histórias, as canções mágicas, tornar-se invisível...

Ficamos a saber que Lord Ashley é morto nesse charco com uma lança aborígene, para despistar.

E ficamos a saber também que o miúdo vive apavorado com receio de ir parar à tal Missão, refugiando-se no tanque de água, de onde espreita Lady Ashley, a mulher mais estranha que já tinha visto.

Para ele, Lady Ashley passará a ser Mrs. Boss. E só depois do funeral de Lord Ashley é que a deixa vê-lo e cantará para ela.

Diz-lhe de forma misteriosa: Vai curar esta terra.

 

A verdadeira aventura começa quando Lady Ashley aceita o desafio, esse sonho quase impossível de levar as melhores cabeças de gado para Darwin.

Mas antes será ela a cantar para Nullah, essa canção de sonhos que encaixa tão bem com o imaginário da cultura aborígene. Tem até um feiticeiro, as chuvas, a Serpente do Arco-Íris...

E o sonho começa a tornar-se possível quando até o bêbado Kipling Flynn (o contabilista) aparece sóbrio.

Já repararam nos nomes de todas as personagens, como são de ficção? Até o cozinheiro chinês, Sing Song, não era o mesmo do cozinheiro da série Bonanza?

 

Bem, voltando ao filme: Outra cena deliciosa, a do desfiladeiro, com o Kipling Flynn a tocar a canção de sonhos ("O Feiticeiro de Oz").

O pobre do Kipling, que irá ficar estendido numa largada da manada e perguntará pelo miúdo, antes de pedir um pouco da bebida de reserva que levara à socapa para circunstâncias especiais.

Cena comovente a do miúdo a enfrentar a manada, quase a escorregar pelo precipício. E depois, já nos braços de Lady Ashley, quando o Drover se aproxima e percebe que, pelo menos naquele momento de aflição, são já uma família no plano dos sentimentos. Drover percebe, pela primeira vez, que está ligado àqueles dois.

Nessa segunda noite bebem em memória do Kipling Flynn e dançam o foxtrot, como explicam, atrapalhados, ao miúdo quando lhes pergunta se é uma dança cerimonial.

Também comoventes (pelo menos para mim) estas lines dos nossos heróis, ao despedir-se nessa noite de descobertas: Acho que daria um óptimo pai... Acho que daria uma óptima mãe...

 

Depois da travessia da Terra do Nunca, guiados pelo King George, a corrida para entregar o gado no barco de metal.

Nullah irá ao cinema ver O Feiticeiro de Oz e os nossos heróis dançarão o foxtrot no Baile.

A chuva cai, para alegria de todos! Drover avisa-a: Na estação seca eu irei levar o gado.

Mas agora está a chover.

 

Doloroso dilema, este de uma mãe do coração aceitar que Nullah terá de fazer a caminhada, partir por uns tempos com o avô. Drover dir-lhe-á que sem isso Nullah não terá história, os sonhos necessários à existência.

Eu compreendi quando disseste que querias ser livre. Mas agora é diferente, nós temos o Nullah.

Mas também Drover viverá o seu dilema doloroso, quando o seu irmão o confronta com a dor de que foge para evitar sofrer:

Estás a fugir. Se não tiveres amor no coração não tens nada. Nem sonho, nem história, nem nada.

Esta cena, do diálogo de irmãos, lembrou-me um outro filme mágico, As Vinhas da Ira, mas apenas na atmosfera, no cenário, pois parecia mesmo um cenário por trás. (Ah, a atmosfera de John Ford...).

 

E não foi apenas esta cena a transportar-me para outras atmosferas, de outros filmes. A cena da invasão de Darwin pelos aviões japoneses e do King George a caminhar tranquilo entre as explosões, lembrou-me O Império do Sol de Spielberg, aquela cena do telhado do Hospital, lembram-se?, quando Jim quase enlouquece ao ver os aviões americanos a rasar os telhados? (J. G. Ballard, o Jim, partiu há dias mas para mim também ficará para sempre nas histórias e nas canções mágicas).

 

Contar histórias é o mais importante. É como mantemos connosco as pessoas que amamos.

 

Australia mostrou-me essencialmente que:

- o cinema é uma linguagem universal, que também vive das suas histórias, das suas personagens, das suas canções mágicas...

- a cultura aborígene sabe que a terra tem um poder, e que as canções mágicas formam caminhos onde não nos perdemos...

- a magia do cinema é da mesma matéria dos sonhos e das canções mágicas.

 

 

 

Obs.: Já que a Feira do Livro de Lisboa está aí, sugeria um livro mágico, O Canto Nómada, de Bruce Chatwin (editora Quetzal).

Apenas um excerto:

Na infância, nunca ouvi a palavra 'Australia' sem que me viessem à cabeça os vapores do inalador de eucalipto e a ideia de um país de cor uniformemente vermelha povoado de carneiros. ...

Tinha na estante um livro sobre o continente australiano e eu olhava, maravilhado, para as fotografias dos coalas e dos martins-caçadores, dos ornitorrincos e dos diabos-do-mato da Tasmânia, do Velho Homem Canguru e do Cão Amarelo Dingo, e da ponte do porto de Sydney.

Mas a fotografia de que eu mais gostava era a de uma família aborígene em viagem. Eram magros e esguios e estavam nus. A sua pele era muito preta, não daqule preto brilhante dos negros, mas um preto baço, como se o sol lhes tivesse sugado qualquer possibilidade de reflexo. O homem tinha uma barba comprida em forquilha e transportava uma lança, ou duas, e um arremessador de lanças. A mulher carregava uma sacola e um bébé pendurado ao peito. Um rapazinho caminhava ao lado dela - identifiquei-me com ele.

Lembro-me dos primeiros cinco anos fabulosos que fiquei sem casa. O meu pai estava na Marinha, no mar, e a minha mãe e eu andávamos de um lado para o outro de comboio a visitar amigos e parentes na Inglaterra em tempo de guerra. ...

Quanto a histórias para adormecer, a minha favorita era o conto da cria do coiote do livro de Ernest Thompson Seton, 'Lives of the Hunted.'

Coiotito era o patinho feio de uma ninhada cuja mãe fora morta pelo 'cowboy' chamado Wolfer Jake. Os seus irmãos e irmãs tinham sido abatidos e a sua vida fora poupada para treinar os mastins de Jake. A imagem dele, amarrado, era a coisa mais triste que jamais vira. No entanto, Coiotito cresceu e tornou-se esperto e, certa manhã, fingiu-se de morto e conseguiu escapar para o mato, onde se dedicou a ensinar a toda uma nova geração de coiotes a arte de evitar os homens.

Não consigo agora explicar as associações que me levaram a relacionar a tentativa de evasão de Coiotito com a 'errância' dos Aborígenes australianos. Nem, no que diz respeito a este assunto, quando ouvi a expressão 'errância' pela primeira vez. Contudo, fiquei com uma imagem desses dóceis 'Blackfellows' que, um dia, trabalham despreocupadamente numa fazenda de gado e, no outro, levantam a tenda e desaparecem no ar sem uma palavra de aviso e sem qualquer razão.

Despiam os fatos de trabalho e partiam durante semanas, meses ou até anos a fio, percorrendo meio continente apenas para encontrar alguém e, depois, regressar como se nada tivesse acontecido. ...

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:29

David Lean e a natureza como metáfora da vida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.08

 

Vi um documentário, nos anos 90, creio que na RTP2, em que David Lean nos conta como as opiniões ferozes de alguns críticos o afectaram. Aquele homem ainda belo e de ar aristocrático, deu-nos Brief Encounter, Great Expectations, Ryan's Daughter, A Passage to India (os meus preferidos). E o público aderiu ao Lawrence of Arabia e ao Dr. Zhivago. Estas críticas deixaram marcas em David Lean: uma inibição temporária, de alguns anos, até voltar a realizar. E no entanto, as soluções com que mais implicaram eram, a meu ver, as soluções mais criativas e ousadas! É Cinema-arte! David Lean utiliza frequentemente a natureza como metáfora da vida, dos sentimentos, das emoções. Lembram-se dos ramos ameaçadores daquela árvore centenária nas Grandes Esperanças? Do vento nos ramos das árvores a substituir-se à visão dessa paixão, na Filha de Ryan? Ou das grutas misteriosas na Índia, que tanto perturbaram a rapariga inglesa?

 

Mas também é exímio na montagem, como também foi referido no tal documentário que registei para sempre. A importância da montagem, no cinema, é também uma das lições que os seus filmes nos dão. Neste documentário David Lean exemplifica-nos, através de uma cena, todos os planos em sequência. Uma sequência perfeita.


E voltemos à Índia filmada por David Lean, aos encontros culturais, às sínteses possíveis, outras impossíveis... à modificação vitalícia de uma rapariga inglesa que percebe a tempo que a perturbação é apenas sua e à modificação vitalícia de um homem simples que se deixará levar pelo delírio da revolta.

Fascinante como consegue mostrar por dentro, e de uma forma tão poética, as diversas percepções culturais: da vida, do amor, das pessoas, do mundo. E de como não são apenas as percepções que as distanciam (as duas culturas), mas também as suas prioridades, os seus valores, os seus princípios. Em comum, o desejo profundo de serem respeitadas na sua especificidade. David Lean tenta entrar por aí, procura a razão dessa dificuldade, e a saída possível para esse dilema. E tudo vai dar ao poder e como ele se exerce e como interfere na vida das pessoas. Tudo vai dar aí. Pudesse esta rapariga falar abertamente do que a perturba, a alguém calmo e sensato, e tudo se teria resolvido naturalmente: é assim que os equívocos melhor se esclarecem. Há uma velha senhora inglesa que pressente tudo isto e que gostaria de ter evitado tudo o que se seguiria. Mas tal não será possível. A comunidade inglesa é logo envolvida e todos sabemos como estes assuntos são tratados, com a abordagem errada (e à dimensão errada).


Mas voltemos atrás: à perturbação da rapariga inglesa. Como o contacto com uma cultura exuberante e sensual a modificou para sempre. Ou como simplesmente libertou uma parte de si própria que tinha reprimido, ou que até talvez desconhecesse... Aqui David Lean recorre de novo à natureza como metáfora: os monumentos que desvendam toda a sensualidade possível, todas as possibilidades de expressão da vida quando se liberta...
Nesse piquenique perto das grutas, o homem simples sente-se todo orgulhoso no seu papel de guia. Mal pode sequer adivinhar que em breve será humilhado e acusado injustamente. De novo David Lean a recorrer à natureza: grutas labirínticas, onde os ecos, aumentados, entram pelo corpo dentro, até invadirem todas as moléculas e deixarem a rapariga a tremer. É de medo do seu próprio desejo que a rapariga treme. É de medo de si própria, no fundo, que grita desvairada.


O recurso à natureza é a marca registada de David Lean. Ele é o mestre. Além da elegância da fotografia e da montagem. E do enorme respeito pelo espectador que nunca trata como voyeur. David Lean é um dos melhores de sempre. Um gentleman do cinema. De alma aristocrata.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:45

Quando o Cinema antecipa a História

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.11.08

 

Guess Who's Coming to Dinner está carregado de significado histórico. Foi o último filme com o par mágico Katharine Hepburn-Spencer Tracy. E antecipou, de forma curiosa, a eleição de um Presidente-síntese racial e síntese cultural.

Só neste fim-de-semana, ao revê-lo no canal Hollywood, reparei que, no próprio filme, no diálogo entre o pai da rapariga (Spencer Tracy) e o médico com quem ela quer casar (Sidney Poitier) esse acontecimento é antecipado no plano do possível e de um optimismo (da rapariga):

Joanna diz que os nossos filhos podem até vir a ser Presidentes...

Um pouco adiante o pai da rapariga diz: Talvez daqui a 50, 100 anos...

 

Sim, o filme antecipa já novos tempos para a América...

Quase consigo imaginar o escândalo que o tema terá despertado na altura em muitas mentes fechadas. E não apenas na comunidade branca, digamos assim. Também o filme refere isso: a resistência àquele casamento é uma resistência das  duas comunidades (e inclui Tillie, a empregada que está naquela família há mais de 20 anos e quer proteger a sua menina).

Estava-se em 1967. E o mais fascinante dessa época é a incrível frescura de um certo Cinema, e de uma parte dos intelectuais, que contrasta com uma outra parte muito agarrada a tradições e preconceitos.

 

Mas voltemos ao filme: a resistência das duas comunidades. Como em Tillie, que assimilou, sem questionar, que uma coisa são os direitos civis. Outra, muito diferente, o que se passa aqui...

Essa resistência não é igual no lado feminino e no lado masculino. No lado feminino, esta resistência é só no primeiro impacto (fabulosa Katharine Hepburn!), pois são mais rápidas e flexíveis na aceitação da situação. Ou porque vêem e sentem o afecto genuíno daqueles dois, os fortes laços que os unem.

A resistência masculina permanece até ao fim (do filme, entenda-se).

Magnífico diálogo entre o pai da rapariga e a mãe do médico em que ela, apesar de perceber a sua motivação (dele) proteger aqueles dois, não via que iriam sofrer muito mais se não pudessem ficar juntos. E diz-lhe com lágrimas na voz: os homens, quando envelhecem, esquecem-se do amor que sentiram quando jovens...

É esta simples frase que mais impacto terá no pai da rapariga e que lhe dará o mote para aquele monólogo final, que é de cortar a respiração e de nos deixar arrepiados, porque é sobre aqueles dois mas também com aqueles outros dois: Spencer Tracy e Katharine Hepburn. É nesse monólogo que diz lembrar-se perfeitamente desse amor enquanto jovem, desse amor ainda vivo. E esta frase fica no ar: Se vocês sentirem um pelo outro metade do que nós sentimos, valerá a pena.

 

Ainda não lhes dediquei um texto neste rio sem regresso. Como foi isso possível, se têm sido uma das minhas maiores referências?

 

Mas hoje é da antecipação da História, e de Sidney Poitier que vou falar. Porque vi, há uns meses um documentário no canal ARTE e o papel simbólico de Sidney Poitier nesta mudança anunciada. Um papel de continuidade histórica também.

Sidney Poitier sabe que as anteriores gerações de actores afro-americanos lhe abriram um caminho, que ele continua. É como se lhe preparassem a possibilidade de dar o passo seguinte: de personagens com profissões subservientes (amas, empregadas domésticas, motoristas, seguranças, recepcionistas de hotel, moços de recados, etc.) para personagens com profissões com formação académica e socialmente mais influentes.

Interessante observar como também em Guess Who's Coming to Dinner vemos já uma diferença de postura e de atitude nas duas gerações. Uma, a do pai do médico, que teve ainda de lutar, numa sociedade que lhe lembra todos os dias a sua condição de "negro", para investir numa vida melhor para o filho. E outra, a do filho, que interiormente reformulou essa imagem social, para se afirmar noutra dimensão: a sua condição de homem, acima de tudo.

Também esta ideia de continuidade de um percurso cultural, de uma evolução de mentalidades está no filme:

No diálogo do médico com o seu pai, este, para o dissuadir do casamento, tenta o argumento da cobrança afectiva e lembra-lhe todos os anos de sacrifícios e privações para que ele pudesse ter um futuro melhor. Mas sem resultado. O filho responde-lhe à letra, que o que o pai fez por ele é o que um pai faz pelo filho, é o mesmo que ele próprio fará pelo seu filho. E por fim resume, no olhar e numa frase, tudo o que sente naquele momento: Eu amo-o, é o meu pai. E por isso só espera que o pai aceite a sua felicidade.

 

Sidney Poitier é um homem inteligente e com uma forma insólita e desarmante de abordar a questão racial. Em parte  porque não nasceu na realidade americana. Como ele próprio referiu no documentário: Na América os afro-americanos são uma minoria. Mas nas Caraíbas, somos a maioria da população.

Por isso, quando o questionaram sobre o seu fraco papel no activismo afro-americano, respondeu: Continuam a tentar reduzir-me a essa dimensão, a minha negritude. Mas essa é apenas uma das minhas facetas. Além de tudo o mais, sou um homem, sou um cidadão americano, tenho uma determinada personalidade, uma intervenção e uma história.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:16

As partidas que a natureza nos prega

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.06.08

 

Aquele vento… e o rosto de Juliette Binoche virado para o vento, a sentir o vento, a ouvir o vento…

E a miúda, sempre contrariada nesse nomadismo. A querer ficar.

E além da Juliette, nómada que ajuda as pessoas com o chocolate, há ainda “os nómadas do rio”…

Ah, o chocolate… as imensas possibilidades do chocolate. “Há um sabor para cada pessoa.” Ao sabor da sua própria natureza. Haverá os amargos, os doces, os picantes, os exóticos, os inebriantes, e até o mais puritano e austero, o conde da pequena aldeia.Haverá espaço para uma mulher que o marido maltrata. Virá refugiar-se na casa de Juliette e da filha, na casa do chocolate, que aprenderá a preparar naquelas misturas estonteantes.

 

É que o chocolate ajuda a reconhecer e a libertar a natureza humana… essa imensa energia que terá de se expandir e voar…

E porque será que temos tanto receio do prazer dos sentidos? Porque nos escondemos e limitamos? Porque evitamos o desconhecido?

Estranho dilema, vivido aqui por várias personagens, mas nenhuma delas até ao limite como a avó diabética, que quer gastar os últimos cartuchos, o último fôlego, de forma feliz, numa festa, com o neto e os amigos! Mesmo que isso lhe custe partir mais cedo do que o previsto para um outro lugar… antes isso do que ser internada e ser cuidada por especialistas.

Aqui todos se libertam do medo e dos limites de uma moralidade imposta. Aqui até o conde terá uma saída feliz, mas só porque a sua natureza lhe pregou uma valente partida! Sim, com o conde tinha de ser mesmo tratamento de choque! 

 

E até o nomadismo inevitável será contrariado pela natureza desse amor real de uma comunidade. E pelo amor primordial da mãe pela filha que quer ficar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:59

The Terminal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.01.08

Spielberg de novo com um olhar mais fresco e solto, quase o olhar desses primeiros anos, em que brinca com a câmara e connosco. Em que se debruça sobre a condição humana. Em que segue os passos de alguns mestres com o afecto de um aluno brilhante. Com o prazer de um rapazinho. É assim que eu o imagino atrás da câmara neste The Terminal.

Depois de várias peripécias e inúmeros obstáculos, começamos a ver o lado inventivo e criativo, o imenso manancial da nossa estranha espécie, condensado neste homem que se vê de repente como unacceptable.

De novo aqui dois mundos em confronto, o oficial, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, da Segurança Interna,do outro o indivíduo e a sua própria sobrevivência. De um lado as imposições rígidas e acéfalas, do outro a criatividade, os neurónios a funcionar. De um lado a falta de sensibilidade e de empatia, do outro a capacidade de dar a volta à desgraça e ao azar.

Há mesmo duas cenas que exemplificam isto na perfeição. Logo no início, a entrevista verdadeiramente estúpida do burocrata do aeroporto. Aqui Navorski ainda não domina o inglês e utiliza as poucas palavras que sabe para responder às perguntas burocráticas, yes, New York, keep the change, Ramada Inn eos nomes de uma rua e de uma ponte. Verdadeiramente risível a completa ausência de comunicação nesta situação caricata. Aqui pensei em Chaplin, sobretudo quando o burocrata pega no seu lanche para exemplificar a situação no país de Navorski, a Krakozhia, e como isso o transformara num apátrida de um dia para o outro.

Outra, quando já o nosso Navorski vive neste terminal há uns meses e um outro passageiro, igualmente de um país de Leste e que por azar fez escala naquele aeroporto, vindo do Canadá, quer evitar que lhe confisquem os remédios para o seu pai doente. O nosso Navorski é chamado como tradutor. Mas como traduzir o desespero deste passageiro para burocratas que lhe querem ficar com os frascos? Como traduzir a vida de um pai amado para linguagem de impressos e de leis estúpidas? Como traduzir a própria vida de pessoas reais para mentes formatadas? Navorski consegue-o, depois de uma situação pungente, o passageiro a implorar de joelhos e a ser manietado pelos seguranças. Há uma luzinha numa falha linguística, de uma troca de palavras, de “pai” para “bode”. É que Navorski já aprendeu, nesta altura do campeonato, as minudências de mais uma lei estúpida: só são confiscados os remédios para pessoas, se forem para animais podem seguir. Há aqui um rasgo filosófico, quase nos lembra Camus… O passageiro vem agradecer ao nosso Navorski e aqui temos a humanidade inteira naquele abraço, a capacidade de empatia e de gratidão, de sacrifício também, porque Navorski viu aumentada a hostilidade do burocrata. Mas deu-lhe a volta! E isso também lhe dá dignidade e o respeito dos seus novos amigos. E estes novos amigos já são quase todos os funcionários do aeroporto e uma hospedeira de bordo por quem se apaixona.

Spielberg acaba por nos mostrar que a humanidade está para além das leis estúpidas, das fronteiras impostas, isto é, enquanto houver inteligência e criatividade, neurónios humanos vivos!

Nova Iorque representa uma assinatura de um saxofonista para o nosso Navorski, do seu amado jazz, e amado pelo seu amado pai. Ele faria o mesmo por mim, tinha dito à amiga. E pelo caminho tocou as vidas de muitas pessoas reais, as mesmas que se vêm despedir, que o acompanham até à porta. Como uma grande família. É impossível não ver Capra aqui a sorrir-nos…

I’m going home… diz o nosso Navorski já no yellow cab.

Em The Terminal vejo o verdadeiro cinema. Está lá o essencial. Misto documentário misto poema, linguagem metafórica e filosófica, diálogos depurados, inteligência, criatividade, humor. Vejo Chaplin, Jacques Tati, Capra, Wyler, John Ford… Vejo o grande amor ao cinema. E vejo a magia de Spielberg, a sua frescura dos tempos iniciais, o seu lado rapazinho a brincar com a câmara. Uma força da Natureza. Um talento único.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:30

As Neves de Kilimanjaro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.12.07

 

O homem espera ansioso e febril. Uma ferida estupidamente infectada. A mulher não se conforma com o desfecho iminente. África como ponto de viragem na vida daqueles dois.

No meio da febre, memórias poéticas e trágicas. A juventude vivida intensamente, sem medir consequências. Passagem pela mítica Espanha, sonhos de heroísmo, mortes sem sentido. E amores antigos ainda vivos. Estranhamente ainda vivos.

Os homens e a sua necessidade de medir forças com o mundo e consigo próprios, como se estivessem sempre inquietos, à procura de qualquer coisa. Sempre a arriscar a vida, no limite.

E é esta mulher, a que está agora ao seu lado, que o tenta proteger, de forma quase maternal. É esta mulher, que ele afasta de forma inconsciente, que luta agora com todas as suas capacidades, inteligência, determinação, para lhe salvar a vida.

Nesta luta a mulher ganha. A vida ganha. O homem acorda e não será apenas da infecção. Olha-a como se pela primeira vez. Hemingway também lutava consigo próprio à procura da ideia exacta, do texto exacto. O que escreve, como escreve, revela essa luta constante. Como uma tourada, vida e morte, sem tréguas.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:22

Thunderheart

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.11.07

Maravilhosa metáfora para os tempos actuais… no país, na Europa, no mundo… Revejo o filme com a mesma alma rebelde, e já lá vão quinze anos… Voltei sempre a esse Thunderheart para me lembrar que às vezes o indivíduo e o grupo podem enfrentar interesses obscuros e dominantes.

The suits… the Cavalry… a que o nosso herói julga pertencer no início e de que se vai distanciando ao longo do filme. À medida que encontra as suas verdadeiras raízes, que o sistema lhe tinha ensinado a rejeitar e a abandonar, deixando-o sempre inseguro, a agarrar-se a certezas exteriores, autoridade, justiça, the FBI…

A realidade exterior do sistema contrasta com a realidade humana das populações, da comunidade. E isso torna-se evidente, não se pode negar. Quem se aproxima dessa outra realidade, da humana, e ainda mantém uma réstia de humanidade na alma… desmonta essa fabricação.

Aqui o nosso herói recupera essa base de apoio e afirma-se como é, antes da programação. Irá seguir as suas raízes índias, o lado do pai. Mas ainda terá de sofrer esse abalo, descobrir que tinha seguido a mãe na negação e rejeição do pai. A identidade masculina faz-se sempre por diferenciação e implica a paz com o pai dentro de si.

Deliciosa expressão do suit, ao persegui-lo de carro, na cena final: He's going native on us... E deliciosa visão final do grupo, da comunidade índia, que aparece em cima dos montes, a toda a volta… como o bater de um grande coração universal… A visão da esperança dentro de cada um de nós…

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:25


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D